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Cyberagreste: quando a problematização prejudica a literatura

Em 2011 eu e alguns escritores pensamos numa estética que, assim como o cyberpunk e o steampunk, formaria uma literatura de gênero (ficção científica ou fantasia) sobre o Nordeste. O nome que demos inicialmente foi Caatingopunk, uma forma de vincular a vegetação predominante, a Caatinga, ao movimento da literatura punk de ficção científica.

Passamos anos afastados uns dos outros. Cada qual seguiu um caminho, e o termo caatingopunk ainda se fez presente duas vezes, e por mãos mais diligentes que as minhas na literatura: Wander Shirukaya. Uma vez em seu blog pessoal, e outra em um prefácio de um livro. Com a dispersão da galera, a ideia desvingou. Se não vingou, não foi culpa de ninguém, nós que fomos lentos, e temos de conviver com isso. Ou tínhamos, até mais ou menos um ano atrás.

Há um ano, amigos quadrinistas de João Pessoa me indicaram as obras do gaúcho Vítor Wiedergrün. Independente de ser ou não estereótipo, achei belíssimo. Muita gente da minha família adorou a proposta estética, e muitos amigos também. Querendo ou não, aquilo era parte de nossa mitologia enquanto Nordeste. Só dois de meus amigos manifestaram desconforto com aquilo: um de São Paulo e um de Minas Gerais. Quem mais se incomodou com aquilo não era de fato daqui, mas vindo de fora. Quem era de dentro achou bonito.

Estereotipado ou não, aquilo é tão parte da minha identidade quando aquilo que não é estereótipo. É uma lição importante se quisermos discuti-lo da forma correta. Escolhi ignorar a arenga gerada em torno, visto que a ideia por trás não me interessa: definir quem pode e quem não pode tratar de nossa cultura, e sob quais termos. Para mim, nenhum tema é ou deveria ser proibido à arte, ou agir dentro de qualquer regra mundana. A arte deve ser, em essência, uma entidade livre.

Não ignoro a opressão histórica que nós, nordestinos, sofremos no decorrer de todo o século XX. Nem ignoro as políticas culturais sudestinas que, via de regra, pretendem apagar nosso legado. Pois nunca conseguiram, e nunca conseguirão. Quando a briga começou, nem fazia ideia da proporção que tomaria. Ouvi essa semana o Poranduba, um podcast, e depois percebi que era só essa besteirada pós-moderna de “lugar de fala”, restringindo a autoria do artista. O podcast citou o texto de Alan de Sá, mas foi depois da indicação de Wander Shirukaya (pernambucano) que senti a curiosidade em ler. Me dediquei em passar uma vista no texto de José Geraldo Gouvêa. Um vídeo no Youtube do canal Fantasticursos entrou no mérito também. Cheguei a uma conclusão: gente demais levantando hipóteses e equívocos, mas ninguém falando o óbvio.

O que preocupa esses autores, pelo que vi, não é se a estética criada pelo Wiedergrün é boa, mas se ele tem a autorização ou não produzi-la. Como eu disse, a arte é livre. Nenhum tema, autor ou obra deve precisar de aval, restrição ou proibição. Ao cagarem regras sobre quem pode e quem não pode falar do Nordeste, estão restringindo temas, autorias e obras. Para isso, só posso dizer: “toma no boga, cumpade!, que essa merda é censura!”

Mando tomar no boga porque é asneira definir quem é nordestino e quem não é por critérios tão toscos quanto “nascer no Nordeste”. Muitos nasceram aqui de pais paulistanos, e uma identidade cultural mais lá que cá. Outros nasceram em São Paulo de pais nordestinos, e uma identidade cultural mais cá que lá. Em essência, vincular a identidade cultural de alguém a estar deste ou daquele lado de uma linha imaginária é passo 1 para a xenofobia. A posição do Alan é xenofóbica, não nos enganemos. Esse “pecado” não começa com forquilhas e fogueiras, mas com critérios de quem é e quem não é do grupo.

A arte é um grande exercício de empatia. Quando Jim Henson escreveu O Cristal Encantado, ele não precisou de uma vivência como gelfling para se colocar no lugar deles. J.K. Rowling não precisou ter um pênis para ter como protagonista um homem. Eu, como homem cis e hétero, posso ter uma personagem transexual, mulher, lésbica, gay. Posso, e não porque me acho no direito de falar dessas pessoas, mas porque, ao imaginá-las, me coloco no lugar delas, e tento ir além do que essas condições são para elas. Meu foco é a dor de existir, e não em como a pessoa faz sexo. O artista que não supera a condição primária da personagem está fadado ao fracasso como ser humano. Por isso encarei a discussão como besteirice.

Se operários numa fábrica entram em greve, não devem destruir as máquinas, mas apropriar-se delas. Se um sulista ou sudestino criar algo na estética que venha a somar na formação da identidade nordestina, ele não deve ser rejeitado, mas usado. Não é porque uma pessoa no Japão pensou numa forma de trabalhar uma estética sobre nós que sua ideia deve ser rejeitada de pronto. Ela pode ter ótimas e péssimas ideias, da mesma forma que nordestinos falando do Nordeste também têm ótimas e péssimas ideias. Fora que o olhar de fora é tão importante quanto o de dentro.

É daí que vem o debate em torno do Cyberagreste. Lídia Zuin, Eduardo Furbino e Laísa Couto imaginaram uma forma de aproveitar a ideia iniciada por Vítor na literatura de gênero. Uma reação veio defecando regulamento sobre tudo e todos, o Sertãopunk, dizendo quem pode e quem não pode usar a estética punk retratando o Nordeste. No fim é pura babaquice, regimento de escolinha, é preencher formulário autorizando quem pode escrever, como deve escrever e quais devem ser os temas.

Por mim, a formação da identidade nordestina já está aí. Os avanços tecnológicos, as motocicletas, os IFs do interior e o êxodo do avesso são parte dessa identidade. As secas, o cangaço, os violeiros, o coronelismo e Padre Cícero também. Definir identidade é complexo, e por mais que haja um tempero melhorzinho ao trabalhá-la de dentro para fora, não podemos simplesmente rechaçar e pisar sobre as imagens de fora para dentro. Temos de nos apropriar dessas ideias, e usá-las para fortalecer o que somos. Se tivermos que fazer alguma crítica às obras de Vítor Wiedergrün, que seja com arte, e não com resmungos.

4 comentários em “Cyberagreste: quando a problematização prejudica a literatura

  1. Andriolli Costa
    15 de setembro de 2019

    Haha poxa, nem de “lugar de fala” eu falo. Coloquei a transcrição do programa no post, depois veja lá que eu respondo claramente à pergunta “quem pode ou não falar sobre algo”. Infelizmente não adianta falar quando o ouvido não escuta – e inclusive a escutatória é uma das respostas que dou 🙂

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    • Maranganha
      15 de setembro de 2019

      Andriolli, grato pelo comentário. Não me restringi ao seu programa, mas ao todo do debate em torno do tema. Sem falar de que, mesmo não sendo citado, é algo que está presente em todo e qualquer debate sobre as representações do Nordeste. Encarei apenas como “mais do mesmo”, nesse sentido, muito do que foi discutido em muitos lugares, sem exceção. Apenas levanto a questão: temos de ir além da autorização aos temas e encarar a arte como livre em si mesma. Sei que é algo que você fez lá pelos idos dos 34 minutos de programa, mas a discussão da permissão esteve presente, assim como em todos os textos que citei.

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  2. Sander B. Radais
    18 de setembro de 2019

    Meu caro,, o texto é fundamentado em falhas equívocos imperdoáveis, mas um chama a atenção:

    ‘Independente de ser ou não estereótipo, achei belíssimo. Muita gente da minha família adorou a proposta estética, e muitos amigos também. Querendo ou não, aquilo era parte de nossa mitologia enquanto Nordeste.’

    Não conheço esse nordeste onde você vive, e acho que ele não existe. Eu também sou do nordeste, de Jequié, e histórias de cangaceiros parecem remotas para mim e meus amigos, e minha família. Conferi aqui. Isto que nomeia de nordeste não é a verdadeira cara do nordeste, mas apenas um estereótipo. Nenhum dos 9 estados ‘celebra’ isto aí. Vai estudar, e abandone esta mentira, que acho que você é um paulistano inventando moda.

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    • Maranganha
      18 de setembro de 2019

      Sander, acredito que exista aí um problema na sua leitura. Primeiro, o cangaço não é uma memória distante nem para minha família, nem para a região onde nasci, cresci e atualmente vivo. No São João, em Patos, ele é celebrado sim, e tudo de bom e de ruim que ele representou se faz presente nas quadrilhas juninas. Sua história é repetida nas salas de aula, nos cordéis que produzimos. A estética do cangaço está presente em quase todas as manifestações populares tradicionais da região.

      Meu avô nasceu no mesmo ano em que Lampião morreu. Cheguei a conhecer descendentes do mesmo, como uma neta que vive em Triunfo-PE. Muitos de meus amigos e conhecidos têm avós que viveram no período. Mulheres que foram ou quase foram estupradas por cangaceiros, homens já idosos que vivenciaram aquilo. Tive um bisavô que quase entrou na tropa de Antonio Silvino (um cangaceiro famoso na Paraíba), e ainda alcancei na minha infância um senhorzinho que lutou em Canudos, e depois se tornou cangaceiro por uns dois ou três anos antes de largar.

      Você acha que é estereótipo, mas a estética local, a região onde vivo, celebra isso sim. Nossa estética primária é a do Quinteto Violado, do Movimento Armorial, do frevo e do xaxado, e, também, a do Cangaço. Se vocês aí na Bahia não gostam dessa associação, recomendo expor uma identidade própria em suas produções artísticas. Melhor que cagar regra sobre os outros 8 estados, viu?

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Informação

Publicado em 15 de setembro de 2019 por em Crítica, Opinião, Relato pessoal.
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